Reflexões do Systemic Investment Summit
- Terra Adentro
- 24 de abr.
- 4 min de leitura
Na semana passada, tivemos a honra de participar da 3ª edição do Systemic Investment Summit (Conferência de Investimento Sistêmico), no Rio de Janeiro, organizado pela TransCap Initiative e pela Converge Capital. Foi a primeira vez que o evento foi realizado no Sul Global, e isso ficou claro.
Ficamos impressionados com a programação, com a qualidade das discussões e como a estrutura dos dias facilitou boas conversas e conexões. Foi uma escolha certeira da equipe da TransCap, que está em um movimento ambicioso de criar e fomentar o ecossistema do Investimento Sistêmico.
Fazer parte de um movimento que está ganhando tração tem suas vantagens. Ele é mais poroso no sentido de que seus contornos ainda estão sendo desenhados, e isso permite correções rápidas e ajustes de rota. Oferece linguagem e conceitos às práticas e processos que já estavam acontecendo, aprofundando a compreensão das pessoas sobre seus próprios projetos e tornando-os legíveis para um campo mais amplo. A propósito, foi comum na Conferência ouvir pessoas dizerem, com uma certa dose de humor, que acabaram de descobrir que faziam "mapeamento sistêmico há anos" ou que "meus esforços para viabilizar iniciativas com apoios de vários parceiros na verdade se chama blended finances."
Outro aspecto é que as oportunidades de colaboração se multiplicam quando um ecossistema ainda está se formando. Este aspecto é aprofundado neste caso por algo particular ao próprio campo do Investimento Sistêmico: ao deslocar o núcleo da análise de investidores e projetos da sua própria atuação para o mapeamento e as interações do campo como um todo, fica claro que soluções duradouras dependem de ampla colaboração entre muitos atores. Nesse sentido, a centralidade da ação se move quase naturalmente do individual para o coletivo, idealmente um coletivo que inclui seres além dos humanos e ecossistemas.
A definição de Investimento Sistêmico apresentada por Dominic Hofstetter, da TransCap, na Conferência, sobre ser "uma abordagem de alocação de capital projetada para transformar sistemas da economia real para o avanço de uma sociedade com baixa emissão de carbono, resiliente ao clima, justa e inclusiva." Esses são resultados desejáveis e nos apontam em uma direção importante, embora devido ao uso abrangente, com contextos e significados diversos, corram o risco de serem cooptados e esvaziados caso não existam mecanismos e incentivos para uma constante verificação de rota. Ademais, nos parece particularmente importante construir um sistema de responsabilização onde investidores e gestores de patrimônio também possam ser responsabilizados pelas pessoas, comunidades, territórios, biorregiões e seres mais-que-humanos.
É precisamente por isso que as vozes das comunidades Indígenas e tradicionais importam tanto para esta conversa, não apenas como um gesto de inclusão, mas como detentoras de um profundo conhecimento relacional e responsabilidade para com a Terra e os ecossistemas. Representantes de comunidades que carregam esse conhecimento estavam presentes no Summit, e sua presença foi impactante. Mas a conversa precisa desse conhecimento e dessa experiência vivida mais próximos do seu centro, não em suas margens. O mesmo poderia ser dito sobre reparação, danos históricos e os padrões mais profundos que (re)produzem as múltiplas crises e desafios que enfrentamos coletivamente. Mas essa é uma conversa para outro post.
Dito isso, o simples fato desta conferência acontecer no Sul Global traz mais visibilidade a estas questões. Como observamos na COP30 em Belém, realizar conversas nos lugares onde os efeitos da crise que nós mesmos criamos são sentidos de forma mais aguda gera tensões necessárias, e uma abertura para as alternativas e tecnologias sociais produzidas por comunidades e territórios que vivem alternativas sistêmicas já há muitas gerações.
É essa tensão produtiva, entre o que o campo está construindo e o que ainda pede espaço pra chegar, que nos trouxe à Conferência. Como Terra Adentro, chegamos lá carregando na bagagem a terceira fase de uma pesquisa-ação em andamento sobre Capital, Poder e Complexidade. Esta investigação foi moldada em parceria com Azul Carolina Duque, e apoiada por Stefan Binder e Cassie Robinson através da Arising Quo. Nesta fase atual, contamos com o apoio inicial de Antonis Schwarz.
Gostaríamos de seguir esse diálogo, e para isso compartilhamos algumas perguntas que tem sido norteadoras nesta pesquisa-ação:
Quais são as condições que podem produzir responsabilização real e relações mais generativas entre pessoas em diferentes posicionalidades e vivenciando assimetrias de poder?
Como construirmos as capacidades internas e relacionais que o investimento sistêmico necessita, para além das capacidades analíticas e dos mecanismos financeiros?
Como estruturas legais, financeiras e psicológicas moldam a relação entre capital e responsabilidade histórica?
O que seria necessário para temas como reparação e danos históricos serem considerados também nos marcos do investimento sistêmico, ao invés de apenas em conversas adjacentes?
Encerramos esta reflexão reconhecendo os projetos, iniciativas e pessoas interessantes que conhecemos e outros que reencontramos - com muita alegria de acompanhar a trajetória. Notamos a ética que guia as ações e a disposição para seguir questionando suas próprias premissas e modelos de negócio, e isso não é algo trivial. A complexidade exige de nós capacidade de continuar se movendo em frente, ao mesmo tempo em que analisamos criticamente o que ainda precisa ser feito de forma diferente, e onde continuamos falhando apesar dos nossos esforços. Esperamos continuar moldando esse campo juntos.
Camilla Cardoso & Dino Siwek

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